Relatório Anual – Fábrica de Ideias – 2025

Relatório – Fábrica de Ideias 2025   Relator: Lucas Marcelo da Silva Santos – Secretário da Fábrica de Ideias Instituições de Vinculação: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH – UFBA) / Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO – UFBA) Coordenação da Escola Doutoral: Claudio Alvez Furtado (UNICV), Cristiane Santos Souza (UNILAB), Fábio Baqueiro (UFBA), Iacy Maia (UFBA), Jamile Borges (UFBA), José Raimundo de Jesus-Santos (CAHL – UFRB), Jusciney Carvalho Santana (UNILAB), Livio Sansone (UFBA), Marcelo Mello (UFBA) e Valdemir Zamparoni (UFBA). Programas de Pós-Graduação Envolvidos: POSAFRO (Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos), PPGHIS (Programa de Pós-Graduação em História), PPGA (Programa de Pós-Graduação em Antropologia). Apoio Institucional: CAPES, Cluster de Excelência África Múltipla (Universidade de Bayreuth, Alemanha) e Universidade Moi (Quênia). Local e Data: Salvador – BA, 01 a 12 de setembro de 2025. Introdução          A 25ª edição da Escola Doutoral Internacional – Fábrica de Ideias ocorreu entre os dias 01 e 12 de setembro, na cidade de Salvador – BA, e  coincidiu com a celebração dos 66 anos do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), reafirmando sua relevância histórica e contemporânea como um dos principais núcleos de produção intelectual sobre estudos africanos, afro-brasileiros e étnico-raciais no Sul Global.        Desde sua criação, em 1998, a Fábrica de Ideias consolidou-se como um espaço de formação intensiva e diálogo internacional, articulando perspectivas teóricas e experiências de pesquisa de diferentes regiões do mundo. A edição de 2025 ocorreu em um contexto particularmente simbólico: o evento propôs refletir sobre 25 anos de transformações nos Estudos Étnicos e Africanos, considerando a emergência do conceito de Sul Global, a crise do multiculturalismo, a ascensão das políticas afirmativas e o desafio de reconfigurar epistemologias num mundo em franca desglobalização.       A escola doutoral manteve seu formato em duas etapas: um simpósio internacional e visitas técnicas (1º a 6 de setembro), seguido de um seminário avançado de pesquisa (8 a 12 de setembro), voltado à apresentação e discussão de projetos de pós-graduandos. O evento contou com a presença de docentes, pesquisadores e pesquisadoras de universidades brasileiras, africanas, europeias e norte-americanas, além de uma equipe de monitores bolsistas que atuaram brilhantemente para o desenvolvimento técnico e metodológico das atividades.

 Desenvolvimento e Análise das Atividades

01 de setembro 

        A Mesa de Abertura reuniu representantes institucionais — Marcelo Mello (diretor da FFCH), Jamile Borges (coordenadora do CEAO), Fábio Baqueiro e Lívio Sansone (coordenação da Fábrica de Ideias), Magali Almeida (POSAFRO), Moisés Lino (PPGA) e Moreno Pacheco (PPGH). O momento inaugural enfatizou a trajetória de 25 anos da Fábrica de Ideias e os 66 anos do CEAO, situando o evento como marco de continuidade e renovação da produção de conhecimento crítico sobre África e diáspora.       Em seguida, o antropólogo Devaka Premawardhana (Emory University) apresentou a conferência “Questionando a Hegemonia dos Paradigmas Norte-Americanos: uma  Crítica de Reducionismo Racial”. Premawardhana propôs uma análise crítica dos programas de estudos étnicos e de gênero nos Estados Unidos, apontando os limites das políticas de identidade racial quando descoladas das dimensões econômicas e de classe. Argumentou que parte dos Estudos Afro-Americanos tem reproduzido uma abordagem culturalista reducionista, e que repensar esses paradigmas é essencial para compreender as complexidades da África e da diáspora global. Sua intervenção defendeu uma leitura desprendida das perspectivas coloniais, sensível às realidades do Sul Global e às formas plurais de produção de saber.  

02 de setembro 

      No segundo dia, o Professor e historiador Marcelo Bittencourt (UFF) apresentou a conferência “A História Social da História da África no Brasil”, destacando o impacto da Lei 10.639/2003 na consolidação da área de História da África no país. Bittencourt apontou que, embora a legislação tenha ampliado o interesse e a presença do tema nos currículos, ainda persiste uma tendência de vincular os estudos africanos exclusivamente ao período do tráfico atlântico. O pesquisador defendeu a diversificação temática e temporal das abordagens sobre o continente, bem como o fortalecimento das redes de cooperação entre pesquisadores brasileiros e africanos, superando os limites institucionais e as dependências pessoais nas parcerias acadêmicas.     Na sequência, Omar Thomaz (UNICAMP) apresentou “Brasil, Haiti e Moçambique: uma trajetória internacional de pesquisa”, refletindo sobre a importância das perspectivas Sul-Sul na produção de conhecimento antropológico. A partir de sua experiência comparativa nesses três contextos, Thomaz problematizou as dinâmicas da memória da violência, da etnicidade e da desigualdade, defendendo que as universidades do Sul Global devem consolidar redes próprias de formação e pesquisa, baseadas em reciprocidade e crítica às hierarquias globais de saber.      No turno da tarde, Premawardhana retornou com a conferência “Recentralizando a Religião nos Estudos Africanos, Afro-Americanos e Étnicos”. Ele destacou a contradição entre a importância da religiosidade para sociedades do Sul Global e sua relativa ausência nas abordagens acadêmicas ocidentais. Argumentou que descolonizar o pensamento exige um olhar crítico sobre os fundamentos seculares e materialistas do conhecimento moderno, reconhecendo a religião como dimensão essencial da experiência humana e como espaço epistêmico de resistência às lógicas racionalistas e racistas herdadas do iluminismo. 03 de setembro      A manhã iniciou com a segunda parte da apresentação do Professor Omar Thomaz, aprofundando o debate sobre a internacionalização dos estudos de campo em contextos africanos e afro-diaspóricos. Na sequência, o professor Cláudio Furtado (Universidade de Cabo Verde – UNICV) apresentou “África e Brasil nos Trânsitos Acadêmicos: passado e futuro num Sul-Global tendencialmente distópico”. O pesquisador destacou o caráter desigual dos intercâmbios acadêmicos, questionando a persistência de lógicas coloniais que ainda informam o modo como África é estudada a partir do Brasil.   À tarde, Inocência Mata (Universidade de Lisboa/CEComp), crítica literária e referência nos Estudos Pós-coloniais de Língua Portuguesa, apresentou a conferência “Estudos Étnicos e Africanos através das fronteiras: memória colonial e literatura como resistência”. Mata analisou, a partir de autoras como Buchi Emecheta e Paulina Chiziane, as narrativas literárias que transformam deslocamentos e experiências coloniais em espaços de resistência e reinvenção subjetiva. Sua leitura literária introduziu a dimensão estética e afetiva nos debates sobre desglobalização e identidades.   04 de setembro        No segundo encontro, professora Mata ministrou “Narrando o Não-Lugar: Exílio, Diáspora e Subjetividade Afrodescendente na Literatura Portuguesa”, examinando obras de autoras afro-lusófonas como Telma Tvon e Djaimilia Pereira de Almeida. Sua análise explorou o “entre-lugar” da diáspora como espaço de criação e contestação do imaginário colonial.  No conjunto, suas aulas propuseram uma leitura inovadora dos Estudos Étnicos e Africanos, conectando o debate sobre desglobalização às dimensões simbólicas e afetivas da literatura como prática de resistência e reinvenção.       Em seguida, a professora e antropóloga Clara Carvalho (ISCTE, Portugal),  antropóloga e uma das principais especialistas em Guiné-Bissau, ministrou a conferência “Onde está África nos Estudos Africanos?”, propondo uma reflexão crítica sobre a posição do continente dentro de seu próprio campo de estudo. Carvalho questionou a hegemonia das academias euro-americanas e defendeu a necessidade de reconhecer os Estudos Africanos como campo político e epistêmico plural, cuja vitalidade depende de incluir vozes e instituições africanas como protagonistas da produção de conhecimento.       No turno da tarde, a professora Mônica Lima, (UFRJ e Diretora do Arquivo Nacional) apresentou “Encontros com as Memórias de África no Brasil Hoje”. A historiadora discutiu como as presenças africanas permanecem centrais na formação cultural e histórica brasileira, visibilizando-se por meio de políticas públicas de memória, educação patrimonial e reconhecimento de patrimônios afro-brasileiros. Sua fala destacou o papel do movimento negro e das iniciativas de preservação da memória africana no Brasil como pontes para uma reconexão diaspórica, articulando o passado à construção de futuros antirracistas e plurais.  05 de setembro       O professor e historiador José Rivair Macedo (UFRGS), especialista em história africana pré-colonial, apresentou a conferência “Os Embaixadores dos Reis do Kongo entre Lisboa, Madrid e Roma (1570–1622)”, resultado de uma pesquisa sobre as relações diplomáticas entre o Reino do Kongo e as monarquias europeias no período da Contra-Reforma. Sua exposição evidenciou a complexidade das interações afro-europeias e a necessidade de revisitar a história atlântica a partir de uma perspectiva de conexão e reciprocidade.       No turno da tarde, a professora Monica Lima retomou a sessão sobre “Memórias de África”, enfatizando o papel do arquivo e da educação patrimonial como instrumentos de reapropriação da história africana no Brasil.   O dia se encerrou com uma noite de autógrafos e lançamentos de livros, reforçando o caráter produtivo e intelectual do encontro.

06 de setembro – Atividades de campo e encerramento da primeira etapa

      O grupo visitou instituições emblemáticas da história afro-brasileira em Salvador, como a Sociedade Protetora dos Desvalidos, o Museu Afro-Brasileiro da UFBA e a Igreja do Rosário dos Pretos. Essas atividades permitiram a imersão dos participantes nas materialidades da memória afro-brasileira, articulando teoria e prática, pesquisa e território. A programação encerrou-se com uma roda de avaliação coletiva, marcando o fim do simpósio e a transição para a etapa seguinte.

08 a 12 de setembro – Seminário Avançado de Pesquisa

      A segunda etapa da Escola doutoral foi dedicada à apresentação dos projetos de pesquisa dos alunos, em sessões coordenadas por docentes convidados. Este momento da programação era aguardado por todos no evento, tendo em vista o caráter contributivo para as pesquisas de pós-graduação em andamento, uma vez que o objetivo do seminário era justamente promover o debate horizontal das ideias produzidas pelo grupo de pesquisadores e pesquisadoras selecionados para a edição 2025 da Fábrica de Ideias.        No dia 9 de Setembro, Destacaram-se as participações dos docentes Peter Simatei e Mary Kayongo (Moi University, Quênia), e das professoras Susanne Mulheisen e Christine Scherer (University of Bayreuth, Alemanha), que apresentaram o Cluster África Múltipla, iniciativa de cooperação acadêmica transcontinental, e a Universidade Moi, no Quênia. Este momento contou com a apreciação dos resultados de pesquisas desenvolvidas nesses centros, com relevância significativa tanto para a descentralização dos estudos étnicos e africanos quanto para a articulação de estudantes intercambistas.      No dia 10 de setembro, pela manhã, A professora Alyxandra Gomes (UNEB), com mediação da professora Jusciney Carvalho (UNILAB), discutiram o tema “Fora do Eixo: Construindo os Estudos Étnicos e Africanos de Outros Lugares”, refletindo sobre descentralização epistemológica e novas metodologias. Compartilhando suas experiências na carreira docente e de pesquisa em torno das literaturas africanas, a professora Alyxandra conduziu uma discussão pertinente sobre os rumos dos estudos étnicos e africanos no Brasil.        No penultimo dia de atividades, o professor Osmundo Pinho (UFRB) apresentou a conferência “Quando Novos Sujeitos (Negros) Entram em Cena: 25 anos de Transformações”, na qual analisou os efeitos das políticas afirmativas e da expansão universitária sobre as ciências sociais brasileiras. Segundo Pinho, a presença de novos sujeitos — intelectuais negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+ — tem provocado mudanças teóricas e metodológicas profundas, desafiando os paradigmas tradicionais e renovando a produção de conhecimento crítico.     As atividades culminaram em uma avaliação geral e confraternização cultural, reafirmando a Fábrica de Ideias como espaço de encontro, aprendizado e solidariedade intelectual.   Avaliações do evento        As avaliações da Escola Doutoral foram coletadas por meio de formulário aplicado aos participantes, abrangendo diferentes dimensões da experiência, como por exemplo organização, diversidade dos palestrantes, metodologia, e contribuição nos projetos de pesquisa. Os dados incluem tanto respostas quantitativas em escala de satisfação quanto comentários qualitativos, permitindo uma análise detalhada sobre os aspectos positivos e pontos de melhoria percebidos, além de sugestões. Esta análise tem como objetivo sistematizar as impressões dos participantes, identificar tendências, destacar sugestões relevantes e gerar subsídios para o aprimoramento das próximas edições, considerando tanto a experiência pedagógica quanto a logística do evento.  Abaixo, consta a relação com o resumo das respostas objetivas do formulário de avaliação:  
Pergunta Muito bom Bom Regular Ruim
Como você avalia a representatividade dos(as) pesquisadores(as) considerando países e regiões do Brasil? 15 13 8 0
Como você avalia a interlocução entre as diversas áreas do conhecimento dentro da Edição 2025 da Fábrica? 12 19 6 0
Considera que você teve um bom aproveitamento e compreensão das aulas ministradas em Inglês, Espanhol e Português? 13 14 8 0
De um modo geral, como avalia a Programação da Edição 2025 da Fábrica? 14 20 2 0
Como avalia sua participação nas demais atividades propostas (visitas aos museus)? 20 10 5 0
Como foi o aproveitamento no debate do seu projeto? Como foram as contribuições e reflexões para o avanço da sua pesquisa? 19 12 4 0
    No mesmo formulário, pedimos aos participantes que, caso julgassem necessário, destacassem aspectos positivos ou sugestões de melhoria, bem como sugestões de temas e palestrantes para estarem presentes nas próximas edições da Fábrica de Ideias. Sobre estas questões, todos os participantes que responderam ao formulário descreveram imensa satisfação ao espaço e a organização, em especial ao grupo de monitores, e sugeriram melhorias, como por exemplo: utilização de outros espaços da UFBA a fim de ampliar o número de participantes, maior presença de convidados africanos, e um espaço maior na programação para o seminário de discussão dos projetos.       Além disso, os participantes sugeriram temas como: meio ambiente, alimentação, Ásia e Oriente médio, desracialização dos sistemas punitivos, Questões de gênero e sexualidade em contextos africanos, estratégia para aplicabilidade do Ensino de história da África para o ensino básico, Uma sessão para diálogo com movimentos sociais, do Brasil e de outros países, preferencialmente, africanos .         Sobre as indicações de palestrantes, aparecem nomes como: Eliete Paraguaçu, professora Andrea Soares, Vilson caetano, Achile Mbembe, Suely Carneiro, Toyin Fálọlá, Níyi Afọlábí, Denise Ferreira da Silva, Lisa Castillo, Vlamyra Albuquerque, Grada Kilomba, kambele Munanga, Maria Simone Euclides, Carla Akotirene, mestres e mestras de saberes não-acadêmico.

Considerações Finais

     A Fábrica de Ideias 2025 reafirmou-se como um dos espaços mais relevantes para o debate sobre os Estudos Étnicos e Africanos no Sul Global, destacando-se pela pluralidade de perspectivas, pela densidade teórica e pela articulação entre pesquisa, docência e prática social. Os debates refletiram a maturidade do campo e apontaram para novas direções — uma ciência descolonizada, interdisciplinar e atenta à experiência histórica e simbólica dos povos africanos e afro-diaspóricos.     As atividades confirmaram que o futuro dos Estudos Africanos dependerá da sua capacidade de repensar paradigmas e reequilibrar as trocas entre Norte e Sul, centro e periferia, teoria e prática.     
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